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31 mars, 2008

Bento Bembe: Autópsia de um fracasso

Classé dans : Non classé — cabinda @ 11:22

bentobembe.jpg«Se ele não tem pasta, então nós damos-lhe um embrulho» ironizavam no meio de gargalhadas jovens guerrilheiros no interior de Cabinda fazendo alusão às funções atribuídas pelo Governo de Luanda a Bento Bembe. Autópsia sobre o fracasso da acção do primeiro signatário do Memorando de Entendimento, António Bento Bembe.
António Bento Bembe tinha tudo a seu favor e fracassou. Ex líder da FLEC Renovada, ex estratega da FLEC Plataforma, ex secretário-geral da FLEC, era encarado como a solução da questão de Cabinda encarnando a moderação, inteligência e juventude. Mas falhou! António Bento Bembe faz parte hoje na galeria dos fracassos da questão de Cabinda.De professor de inglês e recém militante nacionalista cabindês António Bento Bembe foi propulsionado para a chefia da FLEC Renovada, um ramo decidente da FLEC de Nzita Tiago único dirigente activo da FLEC desde 1963, após o afastamento do líder Tiburcio Luemba que entretanto se entregara às autoridades angolanas num quadro ainda hoje pouco claro.

António Bento Bembe teve os meios financeiros de transformar a FLEC Renovada no principal movimento independentista cabindês. Usufruiu do apoio de uma camada importante da elite intelectual cabindesa urbana e especialmente dos apoios monetários da seita sul coreana Moon que efemeramente projectara construir em África o primeiro Estado independente Moon e paralelamente combater o afro estalinismo do MPLA evaporado com o desmoronamento da União Soviética.

A actividade militar FLEC Renovada acabou circunscrita a uma pequena parcela a sudoeste de Cabinda enquanto a maior parte do enclave permaneceu controlado pela FLEC/FAC fiel a Nzita Tiago. A rivalidade entre os dois movimentos era clara chegando ao ponto de se confrontarem militarmente no interior de Cabinda acentuando assim a clivagem entre as duas guerrilhas, porém a superioridade numérica da FLEC/FAC era evidente, assim como o controlo total da zonas territoriais denominadas «zonas libertadas» estendidas especialmente nas aéreas do norte e centro.

Perante a inferioridade de controlo territorial a FLEC Renovada explicava que a «sua» operacionalidade de guerrilha era essencialmente urbana contrariamente à estratégia da FLEC/FAC que se inspirava nos métodos das guerrilhas clássicas africanas,

Um serie de acontecimentos fragilizam entretanto a FLEC Renovada. Arthur Tchibassa foi detido em Kinshasa e deportado para Washington, esta detenção ocorre poucos dias após um encontro de Bento Bembe em Paris com responsáveis da petrolífera americana ChevronTexaco, os quais garantiram a Bento Bembe que o mandato de captura internacional lançado pelos EUA contra Bento Bembe, Maurício Zulu, Tiburcio Luemba e Arthur Tchibassa referente aos acontecimentos de 1990, relativos ao rapto de Brent Swan em Cabinda, tinha sido supostamente retirado. A detenção de Tchibassa provou o contrário e Bento Bembe compreendeu que era ainda prosseguido pela justiça americana limitando assim os seus movimentos.

Após a morte de Jonas Savimbi a ofensiva angolana de 2002, designada como a Operação Vassoura, desaloja a FLEC Renova dos seus principais bastiões no sudoeste de Cabinda. A guerrilha de Bento Bembe vive então um pesadelo agravado pela grave crise financeira em que mergulhava o movimento. Negociar com Angola tornava-se urgente a fim de evitar uma capitulação inglória. Na mesma ocasião a FLEC/FAC também sofrera um forte revés, mas mantinha-se unida e sempre com militares no terreno sendo contudo forçada a retirar dos seus territórios «libertados».

Perseguido pela justiça internacional, juntamente com os seus mais próximos fiéis, derrotado militarmente, Bento Bembe tentou contactos directos com Angola. Mas Luanda retraiu-se dado que o líder da FLEC Renovada representava apenas uma parcela minoritária da guerrilha cabindesa, a FLEC/FAC era incontornável em quaisquer negociações. Com o intuito de colmatar esta deficiência Bento Bembe cria a FLEC Plataforma onde supostamente congregava a FLEC Renovada, sociedade civil e igreja de Cabinda, mas esta estratégia não convenceu o poder de Luanda. Em finais de 2003 surgiu uma hipótese que Bento Bembe não podia deixar escapar…

Os representantes em França da FLEC/FAC e a FLEC Renovada estabeleceram encontros informais que se transformam na base do encontro intercabindês na Holanda que resultaria em Agosto de 2004 nos chamados acordos de Helvoirt onde, na presença de Nzita Tiago e de Bento Bembe, as «duas» FLEC’s se fusionaram num só movimento.

No entanto a fusão da Holanda, saudada unanimemente pela sociedade civil, igreja e guerrilheiros cabindas presentes acontecia numa ocasião em que a FLEC Renovada, sem o conhecimento oficial da FLEC/FAC, já iniciara contactos directos com Angola em Brazzaville, capital da Republica do Congo. Contactos que teriam repercussões nefastas para a consolidação da recente fusão.

Enquanto as delegações europeias dos dois movimentos extintos procediam à fusão das agendas e multiplicação dos contactados conjuntamente, militarmente a fusão era inexistente. Maurício Zulu, destacado militar da FLEC Renovada, apontado como o braço direito de Bento Bembe, nomeado chefe das forças armadas pós fusão não conseguiu consolidar as duas alas da guerrilha e a fusão decidida na Europa permanece uma ilusão nas matas.

Por outro lado o frágil estado de saúde de Maurício Zulu impediu-o de se deslocar aos principais comandos das regiões militares no interior de Cabinda então controlados pela FLEC/FAC.

Com a fusão na Holanda António Bento Bembe assumiu o cargo de secretário-geral da FLEC, um simbólico trampolim criado para ascender hipoteticamente num futuro o lugar da presidência de Nzita Tiago. «É necessário começar a dar o lugar aos mais novos» declarou Nzita Tiago o qual nunca acreditou na viabilidade da fusão das FLEC’s.

Apesar expectativa depositada nos acordos de Helvoirt a fusão permaneceu virtual. António Bento Bembe permaneceu com o seu círculo de fiéis que deram seguimento aos contactos estabelecidos com Angola nas vésperas dos acordos de Helvoirt, e Nzita Tiago mantém por sua vez com o seu círculo fechado de fiéis que desconfiavam da ala de Bento Bembe. Ambas as fileiras pós fusão não se comunicavam na realidade apesar de simulações de acções diplomáticas conjuntas.

O primeiro passo para a ruptura surge quando António Bento Bembe é detido na Holanda pela acção de 1990. Condoleezza Rice, secretaria de estado norte americana assina o mandato de extradição de Bento Bembe para os Estados Unidos, onde o então secretário-geral da FLEC deveria ser julgado pelos factos que levaram Arthur Tchibassa a ser condenado a mais de 24 anos de prisão.

O ex secretário-geral da FLEC é detido e imediatamente uma onda de solidariedade é criada para a sua não extradição para os EUA. Bento Bembe torna-se num herói nacional de Cabinda e num «mártir pela causa». Após manifestação de apoio de varias individualidades politicas portuguesas e «inesperada» expressão positiva do Governo de Angola a favor de Bento Bembe a justiça holandesa permite a libertação condicional do secretário-geral da FLEC o qual deveria aguardar na Holanda pela decisão final do tribunal de Haia.

No entanto Bento Bembe decide virar as costas à justiça holandesa, e com o apoio de familiares parte para a Republica Democrática do Congo com falsa identidade. Rodeado pelos seus fiéis da FLEC Renovada, restabelece contactos com Angola iniciados nas vésperas de Helvoirt e tenta impor subitamente o seu conceito negocial à sociedade civil cabindesa, o qual é rejeitado.

A fronteira de encontros preliminares com encontros oficiais e preparação de negociações é ultrapassada a uma velocidade vertiginosa, perante a estupefacção da sociedade civil cabindesa e a direcção da FLEC próxima da ex FLEC/FAC, os guerrilheiros permanecem na expectativa. Bento Bembe tenta legitimar a sua acção apoiado na decisão de Helvoirt quando o nomeou presidente do Fórum Cabindes para o Dialogo (FCD), mas três quartos dos seus fundadores reprovaram as suas movimentações transformando o FCD apenas uma sigla sem qualquer legitimidade.

Nzita Tiago, presidente da FLEC, retira a confiança a Bento Bembe mas este ignora e prossegue as negociações com base num documento pré-fabricado por juristas portugueses, brasileiros e angolanos, tal como reconheceu Emanuel Nzita que acompanhou parte do processo, que se transformaria no futuro Memorando de Entendimento assinado no Namibe, a província do extremo sul de Angola. A margem negocial de Bento Bembe e da sua equipa foi ínfima, senão inexistente, a sua equipa estava principalmente seduzida pelos postos prometidos pelo MPLA sem ter em conta as qualificações académicas de cada um. Durante as «negociações» afastaram todas as vozes discordantes cabindas que pudessem por em causa as cedências pré estabelecidas.

Foi simulada a assinatura de um cessar-fogo onde os principais chefes da guerrilha da FAC rejeitaram, posteriormente é rubricado o Memorando de Entendimento e Estatuto especial de Cabinda. Em nenhum dos documentos figura o termo «autodeterminação» nem «consulta popular», uma exigência angolana que limitaria Cabinda a ascender a um estatuto específico por via de um referendo. Um estatuto semelhante ao da Madeira ou dos Açores, com Portugal, é estrategicamente afastado.

O direito à autodeterminação de Cabinda foi temporariamente enterrado e Bento Bembe assumiu uma linhagem de fracassos da resolução da questão de Cabinda integrando o largo clube de Pedale, Pitra Petroff, Tiburcio Luemba, Nzau Puna, Peso Mbambi, Ranque Franque além de Fernando Miala, Isaías Samakuva e Osvaldo Van Dunen que a guerrilha garante que «foi morto em Cabinda e o MPLA simulou um acidente clínico em São Paulo no Brasil». Todos tentaram resolver a questão de Cabinda com base em negociações «pré-fabricadas».

Com o desastre do Memorando de Entendimento e do cessar-fogo, o actual Governo do MPLA tenta «lavar as mãos» da questão de Cabinda atribuindo as responsabilidades do seu fracasso a «cabindas» e apontando a opção militar e a repressão como únicas vias de resolução.

EPÍLOGO

As apoteóticas ovações aos acordos de Helvoirt estão enterradas. A fusão das FLEC’s é uma miragem reduzida a um episódio da história da resistência cabindesa. O FCD auto canibalizou-se e sumiu. Os antigos defensores e adversários da extinta FLEC Renovada uniram-se e consolidaram-se.

Bento Bembe está isolado e só, sem o apoio da população desprovido de qualquer poder. De herói prisioneiro na Holanda passou a cativo de Angola. Após ter denunciado as múltiplas «intoxicações» das notícias difundidas pelo MPLA passou a ser encarado como porta-voz do Governo angolano, e do MPLA, para os assuntos delicados de Cabinda. A sua metamorfose ideológica tornou-se incómoda para a comunidade internacional.

Os seus fiéis, na maior parte dos casos sem formação académica competente, após terem assumido funções virtuais em organismos e empresas de Estado estão mais ocupados em garantirem os seus posto que apoiarem o desenvolvimento de Cabinda e raramente aparecem em público. Sérios sinais de discórdia começam a fazer eco no grupo.

Os ataques multiplicam-se no território, numa escalada sem precedentes desde os acordos na Holanda em 2004. Os discursos de Bento Bembe relativos à pacificação de Cabinda não são credíveis internacionalmente face aos ataques da guerrilha contra trabalhadores estrangeiros, os quais já causaram a morte de um brasileiro e feriram gravemente um português, além dos inúmeros jovens soldados angolanos mortos no denso Maiombé. O ataque mais recente aconteceu 18 de Março vitimando um oficial das Forças Armadas de Angola (FAA) que dirigia o dispositivo militar na aldeia do Kissungo próximo de Belize.

Baseado em Luanda Bento Bembe desconhece o dispositivo militar da guerrilha assim como a sua nova organização, articulação e metodologia de combate. Na realidade nunca existiu comunicação entre a FLEC Renovada e a FLEC/FAC que permitisse um conhecimento reciproco das duas guerrilhas, a fusão dos movimentos na Holanda também não permitiu a aquisição dessas informações dada que a fusão das forças armadas não passou do estado embrionário.

A maior parte dos guerrilheiros, com excepção de alguns comandantes, nunca viu pessoalmente Bento Bembe, assim como nunca foi recebido nas actuais bases da guerrilha no interior, apenas Maurício Zulu esteve presente numa base efémera.

Os convites de Bento Bembe, enquanto chefe da FLEC Renovada, à imprensa internacional para visitarem Cabinda, num real desafio à repressão angolana, são agora ridicularizadas pelos ataques de Bento à mesma imprensa quando esta denuncia violações dos Direitos Humanos em Cabinda ou difunde os ataques da guerrilha. Fazendo de Cabinda um «gulag africano» tal como definiu o padre Jorge Casimiro Congo.

A repressão dos clérigos nacionalistas cabindas atingiu proporções sem precedentes. Bento Bembe tornou-se solidário do actual Bispo de Cabinda D. Filomeno Vieira Dias, contestado pela maioria dos cabindas e o qual foi a origem da maior crise da igreja católica de Cabinda e Angola desde a sua fundação. Bento Bembe nunca interveio em defesa dos padres de Cabinda reprimidos, no entanto quando líder FLEC Renovada criara a FLEC Plataforma onde incluíra os mesmos religiosos agora prosseguidos.

Bento Bembe nunca proferiu uma declaração em Defesa dos Direitos Humanos em Cabinda e optou por uma apatia crónica perante as detenções de Raul Danda, Fernando Lello ou as perseguições constantes dos activistas dos Direitos Humanos da extinta Mpalabanda e dos religiosos nacionalistas.

Além do Campo de Refugiados de Kibianga na Republica Democrática do Congo, antigo refúgio da FLEC Renovada, a maioria dos refugiados cabindeses não reconhece a validade do Memorando de Entendimento nem a legitimidade de Bento Bembe e recusam, maioritariamente, regressar a Cabinda devido à sua instabilidade e clima de guerra, situação reconhecida oficiosamente pelas ONG’s internacionais.

A guerrilha em Cabinda existe, está viva e fortemente activa em todo o território. No entanto Bento Bembe afirma que esta não existe e paradoxalmente a guerrilha dispõe de meios para receber a imprensa nas suas bases e provar as suas declarações, contrariamente a Bento Bembe que não consegue abrir as portas de Cabinda à imprensa internacional tal como prometera no passado.

Por fim, após numerosas iniciativas e acções dos dirigentes da extinta FLEC Renovada para libertar Arthur Tchibassa da prisão americana este acabou por ser esquecido por Bento Bembe e Maricio Zulu e corre o risco de se transformar num tabu durante mais de 24 anos. No entanto o quadruplo mandato de captura ainda não expirou limitando as deslocações do Ministro sem Pasta do Governo de Angola o qual deve usufruir de uma imunidade judiciária ou amnistia que não abrange Arthur Tchibassa.

Rui Neumann

(c) PNN Portuguese News Network

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